segunda-feira, 16 de junho de 2008

Programa Anarquista - Errico Malatesta - Parte 3


3. A luta econômica

A opressão que hoje pesa de uma forma mais direta sobre os trabalhadores, e que é a causa principal de todas as sujeições morais e materiais que eles sofrem, é a opressão econômica, quer dizer, a exploração que os patrões e os comerciantes exercem sobre o trabalho, graças ao açambarcamento de todos os grandes meios de produção e de troca.

Para suprimir radicalmente e sem retorno possível esta exploração, é preciso que o povo, em seu conjunto, esteja convencido de que possui o uso dos meios de produção, e de que aplica este direito primordial explorando aqueles que monopolizam o solo e a riqueza social, para colocá-los à disposição de todos.

Todavia, é possível passar direto, sem graus intermediários, do inferno onde vive hoje o proletariado, ao paraíso da propriedade comum? A prova de que o povo ainda não é capaz, é que ele não o faz. O que fazer para chegar à expropriação?

Nosso objetivo é preparar o povo, moral e materialmente, para esta expropriação necessária; é tentar renovar a tentativa, tantas vezes quantas a agitação revolucionária nos der a ocasião para fazê-lo, até o triunfo definitivo. Mas de que maneira podemos preparar o povo? De que maneira podemos realizar as condições que tornarão possível, não somente o fato material da expropriação, mas a utilização, em vantagem de todos, da riqueza comum?

Nós dissemos mais acima que a propaganda, oral ou escrita, sozinha, é impotente para conquistar para as nossas idéias toda a grande massa popular. É preciso uma educação prática, que seja alternadamente causa e resultado da transformação gradual do meio. Deve-se desenvolver pouco a pouco nos trabalhadores o senso da rebelião contra as sujeições e os sofrimentos inúteis dos quais são vítimas, e o desejo de melhorar suas condições. Unidos e solidários, lutarão para obter o que desejam.

E nós, como anarquistas e como trabalhadores, devemos incitá-los e encorajá-los à luta, e lutar com eles.

Mas estas melhorias são possíveis em regime capitalista? Elas são úteis do ponto de vista da futura emancipação integral pela revolução?

Quaisquer que sejam os resultados práticos da luta pelas melhorias imediatas, sua principal utilidade reside na própria luta. É por ela que os trabalhadores aprendem a defender seus interesses de classe, compreendem que os patrões e os governantes têm interesses opostos aos seus, e que não podem melhorar suas condições, e ainda menos se emancipar, senão unindo-se entre si e tornando-se mais fortes do que os patrões. Se conseguirem obter o que desejam, viverão melhor. Ganharão mais, trabalharão menos, terão mais tempo e força para refletir sobre as coisas que os interessam; e eles sentirão de repente desejos e necessidades maiores. Se não obtiverem êxito, serão levados a estudar as causas de seu fracasso e a reconhecer a necessidade de uma união maior, de maior energia; e compreenderão, enfim, que para vencer, segura e definitivamente, é preciso destruir o capitalismo. A causa da revolução, a causa da elevação moral dos trabalhadores e de sua emancipação só pode ganhar, visto que os operários unem-se e lutam por seus interesses.

Todavia, uma vez mais, é possível que os trabalhadores consigam, no estado atual em que as coisas se encontram, melhorar de fato suas condições? Isto depende do concurso de uma infinidade de circunstâncias. Apesar do que dizem alguns, não existe nenhuma lei natural (lei dos salários) que determine a parte que vai para o trabalhador sobre o produto de seu trabalho. Ou, se se quiser formular uma lei, ela não poderia ser senão a seguinte: o salário não pode descer normalmente abaixo do que é necessário à conservação da vida, e não pode normalmente se elevar a ponto de não dar mais nenhum lucro ao patrão. É óbvio que, no primeiro caso, os operários morreriam, e, assim, não receberiam mais salário; no segundo caso, os patrões deixariam de fazer trabalhar e, em conseqüência, não pagariam mais nada. Mas entre estes dois extremos impossíveis, há uma infinidade de graus, que vão das condições quase animais de muitos trabalhadores agrícolas, até aquelas quase decentes dos operários, em boas profissões, nas grandes cidades.

O salário, a duração da jornada de trabalho e todas as outras condições de trabalho são o resultado das lutas entre patrões e operários. Os primeiros procuram pagar aos trabalhadores o mínimo possível e fazê-los trabalhar até o esgotamento completo; os outros se esforçam – ou deveriam se esforçar – em trabalhar o mínimo e ganhar o máximo possível. Onde os trabalhadores se contentam com qualquer coisa e, mesmo descontentes, não sabem opor resistência válida aos patrões, são em pouco tempo reduzidos à condição de vida quase animal. Ao contrário, onde eles têm uma elevada idéia do que deveriam ser as condições de existência dos seres humanos; onde sabem se unir e, pela recusa ao trabalho e pela ameaça latente ou explícita da revolta, impor que os patrões os respeitem, eles são tratados de maneira relativamente suportável. Assim, pode-se dizer que, em certa medida, o salário é o que o operário exige, não enquanto indivíduo, mas enquanto classe.

Lutando, portanto, resistindo aos patrões, os assalariados podem opor-se, até certo ponto, à agravação de sua situação, e, até mesmo, obter melhorias reais. A história do movimento operário já demonstrou esta verdade.

Não se deve, entretanto, exagerar o alcance destas lutas entre explorados e exploradores no terreno exclusivamente econômico. As classes dirigentes podem ceder, e cedem amiúde, às exigências operárias expressadas com energia, enquanto não são muito grandes. Contudo, quando os assalariados começam – e é urgente que eles o façam – a reivindicar aumentos tais que absorveriam todo o lucro patronal e constituiriam, assim, uma expropriação indireta, é certo que os patrões apelariam ao governo e procurariam reconduzir os operários, pela violência, às condições de todos os escravos assalariados.

E antes, bem antes que os operários possam reivindicar receber em compensação ao seu trabalho o equivalente a tudo que produziram, a luta econômica se torna impotente para assegurar destino melhor.

Os operários produzem tudo, e sem seu trabalho não se pode viver. Parece, portanto, que recusando trabalhar, os trabalhadores poderiam impor todas as suas vontades. Mas a união de todos os trabalhadores, mesmo de uma única profissão, em um único país, e dificilmente realizável: à união dos operários se opõe a união dos patrões. Os primeiros vivem com o mínimo para sobreviver no dia a dia e, se fazem greve, falta-lhes o pão logo a seguir. Os outros dispõem, por meio do dinheiro, de tudo o que foi produzido; podem esperar que a fome reduza os assalariados à sua mercê. A invenção ou a introdução de novas máquinas torna inútil o trabalho de grande número de trabalhadores, aumentando o exército de desempregados, que a fome obriga a se venderem a qualquer preço. A imigração traz, de repente, nos países onde as condições são mais favoráveis, multidões de trabalhadores famintos que, bem ou mal, dão ao patronato o meio de reduzir os salários. E todos estes fatos, resultando necessariamente do sistema capitalista, conseguem contrabalançar o progresso que eles detêm e destroem. Desta forma, resta sempre este fato primordial segundo o qual a produção no sistema capitalista está organizada por cada empregador para seu proveito pessoal, não para satisfazer as necessidades dos trabalhadores.

A desordem, o desperdício das forças humanas, a penúria organizada, os trabalhos nocivos e insalubres, o desemprego, o abandono das terras, a subutilização das máquinas etc, são tantos males que não se podem evitar senão retirando dos capitalistas os meios de produção, e, por via de conseqüência, a direção da produção.

Os operários que se esforçam em se emancipar, ou aqueles que de fato procuram melhorar suas condições, devem rapidamente se defender do governo, atacá-lo, pois ele legitima e sustenta, pela força brutal, o direito de propriedade, ele é obstáculo ao progresso, obstáculo que deve ser destruído se não se quiser permanecer indefinidamente nas atuais condições, ou em outras ainda piores.

Da luta econômica deve-se passar para a luta política, quer dizer, contra o governo. Ao invés de opor aos milhões dos capitalistas os poucos centavos reunidos penosamente pelos operários, é preciso opor aos fuzis e aos canhões que defendem a propriedade os melhores meios que o povo encontrar para vencer pela força.

Programa Anarquista - Errico Malatesta - parte 4

4. A luta política

Por luta política entendemos a luta contra o governo. O governo é o conjunto dos indivíduos que detêm o poder de fazer a lei e de impô-la aos governados, isto é, ao público.
O governo é a conseqüência do espírito de dominação e de violência que homens impuseram a outros homens, e, ao mesmo tempo, é a criatura e o criador dos privilégios, e também seu defensor natural.

É falso dizer que o governo desempenha hoje o papel de protetor do capitalismo, e que este último tendo sido abolido, ele se tornaria o representante dos interesses de todos. Antes de mais nada, o capitalismo não será destruído enquanto os trabalhadores, tendo se livrado do governo, não tiverem se apoderado de toda a riqueza social e organizado, eles próprios, a produção e o consumo, no interesse de todos, sem esperar que a iniciativa venha do governo, que, de resto, é incapaz de fazê-lo.
Se a exploração capitalista fosse destruída, e o princípio governamental conservado, então, o governo, distribuindo todos os tipos de privilégios, não deixaria de restabelecer um novo capitalismo. Não podendo contentar todo mundo, o governo necessitaria de uma classe economicamente poderosa para sustentá-lo, em troca da produção legal e material que ela receberia dele.

Não se pode, portanto, abolir os privilégios e estabelecer de modo definitivo a liberdade e a igualdade social sem por fim ao Governo, não a este ou àquele governo, mas à própria instituição governamental.

Nisso, assim como em tudo o que concerne ao interesse geral, e mais ainda este último, é preciso o consentimento de todos. Eis porque devemos nos esforçar em persuadir as pessoas de que o governo é inútil e nocivo, e de que se vive melhor sem ele. Mas, como já o dissemos, a propaganda sozinha é impotente para alcançar tudo isso; e se nos contentássemos em pregar contra o governo, esperando, de braços cruzados, o dia em que as pessoas estariam convencidas da possibilidade e da utilidade de abolir por completo toda espécie de governo, este dia nunca chegaria.

Denunciando sempre esta espécie de governo, exigindo sempre a liberdade integral, devemos favorecer todo combate por liberdades parciais, convictos de que é pela luta que se aprende a lutar. Começando a provar a liberdade, acaba-se por desejá-la inteiramente. Devemos sempre estar com o povo; e quando não conseguirmos fazer com que queira muito, devemos fazer com que, pelo menos, ele comece a exigir alguma coisa. E devemos nos esforçar a que aprenda a obter por si mesmo o que quer – pouco ou muito –, e a odiar e a desprezar quem quer que vá ou queira fazer parte do governo.

Visto que o governo detém, hoje, o poder de regular, por leis, a vida social, ampliar ou restringir a liberdade dos cidadãos, e visto que ainda não podemos arrancar-lhe esse poder, devemos procurar enfraquecê-lo e obrigá-lo a fazer uso dele o menos perigosamente possível. Mas, esta ação, devemos fazê-la sempre de fora e contra o governo, pela agitação na rua, ameaçando tomar pela força o que se exige. Jamais deveremos aceitar uma função legislativa, seja ela nacional ou local, pois, assim agindo, diminuiríamos a eficácia de nossa ação e trairíamos o futuro de nossa causa.

A luta contra o governo consiste, em última análise, em luta física e material.

O governo faz a lei. Deve, portanto, dispor de força material (exército e polícia) para impor a lei. De outra forma, obedeceria quem quisesse, e não existiria mais lei, mas uma simples proposição, que qualquer um seria livre para aceitar ou recusar. Os governos possuem esta força e servem-se dela para reforçar sua dominação, no interesse das classes privilegiadas, oprimindo e explorando os trabalhadores.

O único limite à opressão governamental é a força que o povo se mostra capaz de lhe opor. Pode haver conflito, aberto ou latente, mas sempre há conflito. Isso se dá porque o governo não para diante do descontentamento e da resistência populares senão quando sente o perigo de uma insurreição.

Quando o povo se submete docilmente à lei, ou o protesto permanece fraco e platônico, o governo se acomoda, sem se preocupar com as necessidades do povo. Quando o protesto é vivo, insiste e ameaça, o governo, segundo seu humor, cede ou reprime. Mas é preciso sempre chegar à insurreição, porque, se o governo não cede, o povo acaba por se rebelar; e, se ele cede, o povo adquire confiança em si mesmo e exige cada vez mais, até que a incompatibilidade entre a liberdade e a autoridade seja evidente e desencadeie o conflito.

É, portanto, necessário preparara-se moral e materialmente para que, quando a luta violenta eclodir, a vitória fique com o povo.

A insurreição vitoriosa é o fato mais eficaz para a emancipação popular, porque o povo, depois de ter destruído o jugo, torna-se livre para se entregar às instituições que ele crê (sempre retardatária) e o nível de civismo que a massa da população alcançou, pode ser superada com um salto. A insurreição determina a revolução, isto é, a atividade rápida das forças latentes acumuladas durante a evolução precedente.

Tudo depende do que o povo é capaz de querer.

Nas insurreições passadas, o povo, inconsciente das verdadeiras causas de seus males, sempre quis bem pouco, e conseguiu bem pouco.

O que desejará nas próximas insurreições?

Isso depende em grande parte do valor de nossa propaganda e da energia que formos capazes de mostrar.

Devemos incitar o povo a expropriar os proprietários e a tornar comuns seus bens, organizar, ele próprio, a vida social, por associações livremente constituídas, sem esperar ordens de ninguém, recusar nomear ou reconhecer qualquer governo e qualquer corpo constituído (Assembléia, Ditadura, etc) que se atribuíssem, mesmo a título provisório, o direito de fazer a lei e impor aos outros sua vontade, pela força.

Se a massa popular não responde ao nosso apelo, deveremos, em nome do direito que temos de ser livres, mesmo se os outros desejarem permanecer escravos, para dar o exemplo, aplicar o máximo possível nossas idéias: não reconhecer o novo governo, manter viva a resistência, fazer com que as comunas, onde nossas idéias são recebidas com simpatia, rejeitem toda ingerência governamental e continuem a viver de seu modo.

Deveremos, sobretudo, nos opormos por todos os meios à reconstituição da polícia e do exército, e aproveitar toda ocasião propícia para incitar os trabalhadores a utilizar a falta de forças repressivas para impor o máximo de reivindicações.

Qualquer que seja o resultado da luta, é preciso continuar a combater, sem trégua, os proprietários, os governantes, tendo sempre em vista a completa emancipação econômica e moral de toda a humanidade.

5. Conclusão

Desejamos, portanto, abolir de forma radical a dominação e a exploração do homem pelo homem. Queremos que os homens, unidos fraternalmente por uma solidariedade consciente, cooperem de modo voluntário com o bem-estar de todos. Queremos que a sociedade seja constituída com o objetivo de fornecer a todos os meios de alcançar igual bem-estar possível, o maior desenvolvimento possível, moral e material. Desejamos para todos pão, liberdade, amor e saber.
Para isso, estimamos necessário que os meios de produção estejam à disposição de todos e que nenhum homem, ou grupo de homens, possa obrigar outros a obedecerem à sua vontade, nem exercer sua influência de outra forma senão pela argumentação e pelo exemplo.
Em conseqüência: expropriação dos detentores do solo e do capital em proveito de todos e abolição do governo.
Enquanto se espera: propaganda do ideal: organização das forças populares; combate contínuo, pacífico ou violento, segundo as circunstâncias, contra o governo e contra os proprietários, para conquistar o máximo possível de liberdade e de bem-estar para todos.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Ninguém representa ninguém! Represente a si mesmo - não guilhotine sua vontade própria... O seu voto é sua cabeça, fique com ele. Eleições? Submissão!


Representação não é Democracia!

Caso perguntássemos a algum dos grandes pensadores do iluminismo francês, Rousseau, Voltaire, Montesquieu ou Diderot, o que era democracia, eles certamente que diriam que, primeiro, era uma coisa do passado, e segundo que não voltaria jamais, que nunca este sistema originário na Grécia antiga e recorrente no princípio da República Romana voltaria às sociedades modernas. Naqueles tempos, fins do século XVIII, não existia no mundo nenhum exemplo vivo de democracia. A França vivia sob uma monarquia decadente, ostensiva e autoritária, a Inglaterra, que após a revolução gloriosa, teve instaurado seu parlamento, tampouco poderia ser chamada de democrática, posto que no parlamento os lordes representavam à si mesmos, seus próprios interesses, e não às massas que continuavam miseráveis nos becos sujos das cidades e nos campos feudais britânicos. O resto do mundo vivia sob monarquias, desde os impérios do Oriente, até as estepes russas. Apenas as nações indígenas da América do Sul e as tribos dos pele-vermelhas norte-americanos tinham sociedades diferentes, mas que não vem ao caso, por serem demasiado isoladas.

Em 1776, ocorreu a Independência Americana, que significou uma experiência totalmente nova. Os colonos recém independentes se viram na tarefa de administrar seus territórios por conta própria. Não queriam, evidentemente, a Monarquia Parlamentarista inglesa, da qual acabavam de se ver livres, nem a considerada obsoleta e inoperante democracia grega, onde todos os cidadãos votavam diretamente na Assembléia, envolvidos em todos os acontecimentos políticos da sociedade, o que se mostrava ineficaz para os americanos.

Lembremos de que a democracia grega não era eletiva. Ninguém era eleito para tomar as decisões políticas. As questões mais importante para a Cidade-Estado eram votadas pelos cidadãos reunidos na Ágora ou comissões eram formadas por indicação e revezamento, para tratar dos temas menores. Uma grande invenção daqueles tempos foi o princípio da isonomia, que determina que todos são iguais, politicamente falando. Fosse aristocrata, fosse artesão, filósofo ou marinheiro, se estivesse na condição de cidadão ateniense, o voto de cada um tinha o mesmo peso. As eleições, portanto, eram consideradas impróprias por serem avessas a essa isonomia. Uma eleição é basicamente a escolha dos “melhores” para determinado cargo, e os “melhores” eram sempre necessariamente aristocratas, que eram aqueles que eram donos das terras e tinham recursos para se darem ao luxo de terem muito tempo livre, esse dedicado à educação, contrariando a idéia da igualdade entre eles e da decisão nas mãos de todos. Assim, o que era de grande importância era decidido pelo total de cidadãos presentes, fossem quantos fossem.

De volta para as 13 Colônias, os dominantes que estavam à frente da independência não queriam jamais uma democracia, pois se todos fossem participar igualmente do processo decisório, achavam que cada um buscaria unicamente seus interesses individuais, sendo assim, a política se tornaria uma imensa somatória de egoísmos. Era preciso encontrar uma terceira possibilidade, que evitasse essa busca limitada aos interesses pessoais, o que tornava o governo um caos. James Madison, um dos influentes intelectuais da independência, propôs essa outra via, o Princípio da Representação. Seria a escolha da minoria pela maioria. Esta minoria seria encarregada de cuidar de todos os assuntos políticos, uma classe representando a maioria que os elegeu. O que garantiria que essa minoria não fissesse o mesmo que os outros, trabalhando em prol apenas deles mesmos? O fato de que eles foram elevados àquele nível por um contigente de pessoas que, se se sentissem que os eleitos não defendiam os interesses gerais, não votaria neles novamente.

Naqueles anos agitados, início do século XIX, a sociedade ocidental era dita comercial, marcada pela divisão do trabalho, onde cada indivíduo tinha uma especialidade pela qual se diferenciava dos demais. Um era ferreiro, outro comerciante de ferraduras, outro fazendeiro, outro estaleiro, e assim por diante. O tempo que precisavam dedicar aos seus assuntos particulares era majoritário. Sobrava pouco tempo para outras coisas. Todos os problemas e preocupações de suas ocupações individuais não deixava muito espaço para as preocupações coletivas. Daí surgia um problema - se as pessoas, em seus nichos de atuação, não tinham tempo para cuidar da questão pública, quem cuidaria? Mais um motivo então para a criação da classe política, essa minoria “dedicada” integralmente aos assuntos públicos, dos quais não conseguiam dar contas as demais pessoas, nem nunca tiveram o costume de o fazer. Todas as sociedades estavam acostumados com regimes ditatoriais que impunham a vontade de uma elite. A população nunca esteve incumbida de gerenciar a sociedade, com exceção da restrita democracia grega.

Sendo assim, quando a solução da representação foi proposta, todos consideraram conveniente, ou simplesmente se abstiveram, pela força do hábito, de opinar a respeito. Com a promulgação da primeira constituição escrita da história, nasceu também a primeira nação federativa e presidencialista. Foi o início da confusão entre Democracia e Representação. Aproveitaram-se das idéias de Montesquieu sobre os três poderes em que deveriam ser divididos o Estado - Executivo, Legislativo e Judiciário - organizando, desta forma, aquela realidade paralela, a da política governamental e eleitoral. Como sempre, as decisões políticas estavam em outra esfera distante da vida popular.

Essa condição de classe detentora do poder decisório sobre o interesse comum criou o “princípio da distinção”, uma diferenciação entre a classe política e as demais. Já que as pessoas delegaram à terceiros as decisões sobre os interesses comuns, elas se colocavam distantes desses assuntos. O poder de ação, regulação e direção sobre a sociedade continuou nas mãos de alguns poucos. Aconteceu que o Rei se transformou em uma comissão de reis (vulgo, parlamentares), vários indivíduos dotados de poder superior ao de qualquer indivíduo comum, pela legitimação institucional (fictícia) dada pelo voto, pois criou-se o mito de que A Nação, O Povo (transformada(o) em uma entidade supra-indivíduo) escolheu e cabe a todos obedecer.

Em seu livro Os Princípios do Governo Representativo, Bernard Manin constata que aos representantes são distintos dos representados, e são os primeiros que possuem a prerrogativa de definir o que é ‘interesse público’. Destituída, ou então, delegada a preocupação com os próprios interesses, que dentro do todo, são ditos ‘públicos’, cada indivíduo continuou, como sempre esteve nas épocas monárquicas, longe e desinteressado da política. Esta distância permitiu àqueles elevados ao cargo político adquirirem para si privilégios, semelhantes aos da nobreza da Idade Média. Controle sobre a riqueza da nação, existente na forma de impostos, tornou predominante na “classe política” a cupidez indiscriminada, a busca pela própria riqueza, pela sempre crescente influência, pelo fortalecimento da tal distinção.

A desigualdade entre os homens é legitimada por ser parte integrante imprescindível na forma de governar. O caráter aristocrático do sistema representativo, que colocou no pedestal eleitoral todos os hereditários poderosos, construiu-se na mentalidade da manutenção desse poder. As polícias e os exércitos se constituem, conseqüentemente, nas forças materiais capazes de assegurar a perpetuação da ordem vigente, para que os indivíduos não possam mais requerer o direito delegado de decidirem sobre eles mesmos.

Há também a invenção dos partidos. Fez-se preciso a organização dos indivíduos interessados em ingressar na vida pública, nas eleições, no poder governamental. Nem mesmo entre o pequeno grupo dedicado ao poder existiu em alguma época da humanidade unidade, portando, as forças afins entre si se juntaram e criaram as corporações políticas, chamadas partidos. À exemplo das antigas guildas medievais, onde os artesãos se associavam para auxilio mútuo, a fim de controlar os demais e garantir-lhes certos monopólios e seguranças, sendo vetada a entrada de qualquer novo artesão sem a permissão da guilda específica, os partidos construíram-se como esfera exclusivista (diga-se também excludente), sendo única porta legal para o sistema eleitoral. Cria-se assim um monopólio até mesmo das eleições, pois caso algum grupo que se oponha excessivamente ao sistema vigente, ele é rapidamente deslegalizado e impedido de tomar parte no governo, como aconteceu por tantos anos com o Partido Comunista Brasileiro durante o século XX.

Hoje, se os rótulos do PCB e suas ramificações permaneceram, sua essência, para manter-se ‘legal’ no sistema, teve que igualar-se aos demais, para não gerar nenhum atrito estrutural. No cenário conjuntural, as rivalidades partidárias continuam imensas, assim como foram constantes e ininterruptas as guerras entre senhores feudais na antiguidade, sem, no entanto, contestação da instituição da monarquia, ou, modernamente, do sistema representativo.

Se antes a intenção do pluripartidarismo era oferecer diversas opções para os variados tipos de pensamentos individuais que quisessem ingressar na política, hoje o objetivo comum a todos os partidos de tomar controle do poder e dos privilégios serviu para igualar todas essas entidades. Nenhuma cogita perder seu posto sob a sombra das vantagens do poder, nenhuma ousa mexer nas estruturas de seu próprio palácio, a não ser para ampliá-lo. Jamais para abrir para outras pessoas as portas desse ‘paraíso’.

“É preciso que as coisas mudem um pouco para que nada mude”. Caiu a monarquia, veio a República Representativa. Parece que houveram mudanças, mas não. O egoísmo sob nova forma. A distinção entre o povo e os mandatários tornou-se tão grande que os últimos viram-se praticamente livres dos outros, independentes para fazer o que bem entenderem, dispor dos recursos nacionais como der na telha, declarar guerra ou firmar acordos com quem lhes for mais interessante e vantajoso, enfim, administrar o de todos como uma grande propriedade fortemente disputada, uma coroa cobiçadíssima.

Atualmente o Executivo, Senado e a Câmara são praticamente autarquias, que não devem grandes satisfações à ninguém, dando-se ao direito de tornar sigiloso o que não for interessante tornar público (como se o próprio e mentiroso sistema não dissesse que tudo já não é público) - como é o caso dos arquivos da ditadura e dos registros das corrupções de todos os mandatos -, decretando como segredo nacional ações capciosas demais para serem divulgadas, enfim, escondendo tudo o que não deve ser vistos pelos inocentes eleitores, representados. "É preciso manter a ordem!"

O Judiciário nada mais é do que um braço a mais dos dois outros poderes, o Executivo e Legislativo, não tendo grandes poderes de combater as ingerências dos mesmos. Os três poderes, no final das contas, principalmente aqui no Brasil, tornaram-se uma incompreensível (para os leigos) mesa de negociações partidárias, onde as influências e poderes são cedidos e tomados todo o tempo e onde nada se faz sem os pagamentos e distribuição de posições e cargos a um e a outro. Alguém se lembra de que no surgimento do Feudalismo, os Reis distribuíram terras entre os nobres para comprar-lhes apoio? Pois bem, insaciados, os senhores ainda assim conspiram e fazem cair coroas, ou no mínimo as impossibilitam de fazer qualquer movimento, sem os devidos pagamentos.

A política moderna não se faz sem os acordos e concessões à base governista e à oposição. Nada acontece sem primeiro terem que distribuir tantos ministérios para partido A, tantas secretarias para partido B e tantos acordos e contratos com partido C, empreiteira D, corporação E, Oligarquia F, Coronelado G, imprensa H, fazendeiros I, industriais J e o alfabeto inteiro de responsabilidades, subornos e pressões políticas dos interesses privados. O interesses público, que supostamente deu início à espoliação da população, é mera fachada, bandeira branca da paz, que garante a continuação de tudo.

Representação não é democracia. Não se pode acreditar nessa falácia. Não existe nenhuma democracia na face da Terra. Nenhuma nação, onde a vasta maioria utiliza demagogicamente o termo de “democrática”, pode dizer isso. O que existe são incontáveis ditaduras minoritárias, governadas por grupos elitistas numericamente insignificantes, mas poderosíssimos devido às ‘instituições’ da propriedade privada e do dinheiro, que dá à esses homens o “direito” de estarem acima dos demais, sejam milhares ou milhões.

Há ditadura? Sim, há. Ditaduras mascaradas sob o véu de constituições meticulosamente desenhadas para soarem como abrangentes a todos os supostos cidadãos, mas que na prática são mantos protetores das injustiças e desigualdades, baluartes da propriedade privada e da autoridade impositiva e opressiva, defensora do sistema marcantilizador dos homens, onde de almas à corpos podem ser quantificados em cifras, sendo vidas investimentos, prejuízos ou descartáveis.

Considerando a sustentabilidade do sistema representativo antidemocrático, como poderia ser ele considerado viável se as populações são tão numerosas que um punhado de indivíduos, ainda que se considerasse que estes se dedicassem unicamente ao bem público (o que não é nem nunca será verdade), não são suficientes para dar cabo de todas as demandas? Resultado é que as necessidades sociais, econômicas e produtivas dos países se arrastam, se atrasam, se engavetam e se ignoram, pois um punhado de deputados e senadores não podem estar encarregados das necessidades de milhões de pessoas. Como poucas secretarias e ministérios podem dar conta de todas as ruas, todas as casas, praças, escolas, hospitais e locais de lazer de uma cidade, estado, país? Não podem, e esses aspectos da vida social acabam ignorados e sucateados por irresponsável concentração de poder.

Deterioram-se continuamente as cidades e os campos, mortificados pelas mazelas sociais da pobreza, injustiça, violências contra o meio ambiente e as camadas populares, entupimento do crescente tráfego rodoviário, sufocação pela expansão desorganizada da área urbana, concentração fundiária sanguinária, pautada pelo lucro e não pela fome, expulsando o homem da terra, exclusão dos desfavorecidos, exploração dos desesperados, assassinatos irrefreáveis, frutos da desigualdade e opressão. Os problemas e as mortes se generalizam e banalizam, até que a autodestruição ponha fim a essa insânia, ou que as pessoas percebam que não podem se deixar representar e construam sociedades desinchadas e sustentáveis, baseadas na solidariedade e participação voluntária de todos numa sociedade humanizada, motivada pelas necessidades gerais dos homens, pela felicidade de todos, ao invés de santificar os lucros que não têm nos homens qualquer importância.

Representação não é democracia! Desmistifiquemos e combatamos essa mentira, não permitindo que a perversidade do sistema use a ilusão da democracia para sua legitimidade. Sem esse escudo ideológico, a estrutura se corroerá, pois se perceberá que ninguém está incluso a menos que abdique da vida e do futuro, numa existência mortífera, entorpecente e falsa. Representação não é democracia. A decisão sobre sua vida não está em suas mãos. Votar é apenas negar o seu próprio caminho. Eleição é o mecanismo ludibriador popular. Ninguém lhe representa a não ser você. Se represente.
--//--
Texto baseado em palestra de Renato Lessa, Cientista Político, exibido na TV Cultura no dia 19 de Maio de 2008, no programa Invenção do Contemporâneo, além de informações complementares, pesquisa e reflexão.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

"Enterrem meu coração na curva do rio"...


Vida, vidas, vi vidas, vivi vidas, vinte vidas, vividas...


Às vezes os minutos duram eras,
Éramos diferentes antes de bater o relógio,
Recordas as flores d´outras primaveras?
Não fuja, não se esconda do belo ócio.

Na límpida superfície afloram bolhas
Quebrando o espelho do céu noturno,
A lua baila ao som das folhas
Meu coração palpita taciturno.

Na face curvilínea da esquina
Onde, desvairados, peixes viviam
Enterrou-se, do meu coração, a rima,

Silenciaram os gorjeios das aves de rapina
Que nas minhas cinzas colinas dormiam.
"Existirmos, a que será que se destina?"

domingo, 4 de maio de 2008

Esforcem-se para criar um estado de coisas onde todos sejam humanos...



De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?

2

Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor: que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!

Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.

Bertolt Brecht

Todos igualmente diferentes... Não se padronize... "Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo" - Ouse... Seja...


“Penso

e espero que jamais alcance

a imprudente idade do bom senso.”
Maiakovski


A Idade do Senso-Comum


Comum, igual para todos, a média da intelectualidade, nem muito, nem tão pouco. Costumeiramente conservador, pautado pelas tradições restritivas de uma sociedade. Senso, ou como é sentido pelos membros da comunidade um determinado assunto. Sentimento mediano de uma população conservadora – Senso-comum. Sentidos amestrados, obedientes às convenções sociais. Mesmo o corredor mais vigoroso desiste perante tantas correntes. A maior parte da sociedade também acaba se entregando depois de séculos sob o jugo do Senso-comum.
Mediocridade é um atributo fundamental para o sistema. Os medíocres contentam-se com pouco, com muito, com a média, com excessos e escassez. Eles simplesmente contentam-se. Na verdade, não importa a quantidade nem a qualidade, obedecem, engolem os grãos secos e ásperos da submissão.

“Penso e espero que jamais alcance a imprudente idade do bom senso”

Porque imprudente? Prudência é encontrar o equilíbrio, saber discernir entre o bom e o ruim, descobrir a harmonia entre o muito e o pouco, sentir a precisão do ideal. Imprudente justamente por perder a autonomia de decidir por si esses parâmetros, relegar a outros, ao senso-comum, também conhecido como bom-senso, esta criação coletiva, este ente metafísico que preenche os espaços vazios entre as almas sociais, as rédeas da própria escolha. A imprudente idade do bom-senso é aquela que acomete os que não mais se importam em lutar pelo que acreditam, buscar novos mundos, levantar utopias, pincelar realidades impossíveis, em distinguir os abusos e absurdos. Aqueles que esqueceram dos próprios pés, mãos, mente, corpo, para juntar-se à massa disforme, conforme, amorfa, intangível, das regras, convenções, paradigmas, verdades absolutas que ninguém mais questiona.
Na construção conjunta da Humanidade verdadeiramente humana, fraterna, justa, igualitária e rica em diversidade, ninguém pode afundar nos poços que afogam suas individualidades, nem deixar calar suas vozes, em detrimento da voz ‘oficial’, ou esquecer seus caminhos pessoais em troca da estrada cimentada, medida e padronizada na qual muitos se esquecem se si mesmos. “Todos os caminhos levam à Ele”, todas as vidas, infinitamente pessoais levam, no fim, ou no princípio, à humanidade. Não é uma questão de isolar-se para manter o indivíduo, é se unir na plena consciência de que cada um é especial, único, arte imprescindível e inigualável no mosaico humano.

“Lutar pela igualdade, sempre que as diferenças nos descriminem; lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize” Boaventura de Sousa Santos – Sociólogo

Como salvar a humanidade sem antes salvar um homem? - Segure primeiro essas mãos...


Porque a Solidariedade - II


Severas críticas existem contra o voluntariado. Contra esta luta na sua forma mais simples contra a crueldade e indiferença mais complexa dos homens. Dizem que é paliativo, desencargo de consciência, ou que só aumenta o mal. - Não resolve o problema e ainda o mitiga, tornando mais difícil solvê-lo, já que a crueza se disfarça -, uma alegação muito comum. - Quanto mais brutal a opressão, melhor para combatê-la, pois o extremo da dor comove muitos mais, vence maiores desavenças. - Feridas reconfortadas pelo bálsamo acabam esquecidas, esquecem-se as facas que as abriram, pois novos calmantes estarão disponíveis. – Existe qualquer verdade nisso tudo. Mais existe ainda mais desumanidade, crueldade, brutalidade.

Como ousam, aqueles que se dizem combater os carniceiros de homens, preferirem rios de sangue, justificando ser neles mais fácil navegar, condenando os que, com pequenas pás, tentam afogar as incontáveis nascentes vermelhas, afim de secar, mesmo que só um pouco, os caudalosos rios. Como podem atirar pedras contra os esquilos que semeiam novas sementes, sob o pretexto de que as escavadeiras precisam revolver a terra para nascerem as novas florestas?

Para mim, estes “grandes” que blasfemam os “pequenos”, “certos” que desaprovam os “errados”, sofrem da mesma inversão que combatem, cegos e extremos. Tão enobrecidos pelos ideais que levantam, esforçados em suas batalhas, enaltecidos por seus próprias consciências de que estão fazendo o maior e o melhor, a brava luta, trocam, novamente, como muitos os fizeram antes deles, o homem em si, pelo ideal do homem. A Justiça, ao invés dos homens justos, A Liberdade, ao invés dos homens livres, A Luta, ao invés de homens felizes.

Quero que alguém me diga como construir um novo mundo sem antes construir um novo homem. Mostrem como os homens cheios dos mesmos vícios e horrores podem cobrir-se do véu da “Guerra Santa”. Pois se assim não é, se minto, se são esses homens que jogam tijolos ferozmente, achando que vão erguer paredes, ao invés de entulho, os que vão mudar o mundo, porque todas as revoluções, lutas e revoltas caíram, por terem líderes que logo se corromperam, traíram todos os antigos ideais, trocaram a liberdade de todos pela sede de poder? E se uma ou outra revolução não se traiu totalmente, tão cercada está pelos ferozes que não pode abrir os braços e alcançar a todos.

No Brasil não é diferente. Os movimentos ditos revolucionários, de esquerda, socialistas, lutando pela justiça, cheios de nobres ideais, trocam a união e a fraternidade por disputas de poder, intrigas, saques e golpes. Os altivos leões tornam-se ratos trapaceiros, metidos no mesmo lamaçal de crueldade que combateram. Em grande, média ou pequena escala se repete este estado. Chefões ou militantes gritam furiosamente contra o partido opositor, repetem os hinos de controle. Justiça? Só se for a eleitoral.

O voluntariado, condenado, assiste aos escândalos que cercam seus algozes, e continua, fiel ao seu amor humano, a trabalhar estendendo a mão aos que sofrem da luta “do bem contra o mal”, valores que se confundem, quando a tentação humana pelo poder de ser maior entra em jogo.
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Não digo que todo voluntariado seja semeador de humanidade. Há mesmo muita verdade nas críticas que sofrem, pois alguns voluntários somente reproduzem os estados de pensamento da submissão, trabalham sem olhar para o amanhã, querem trabalhar sempre, ignorando que o objetivo é não terem mais que trabalhar desta forma, pois os males humanos se extinguiram. Inconscientemente fazem a manutenção do sistema de sangue.

Mas há outro voluntariado, o trabalho por livre e espontânea vontade, voltado pela reverter tais padrões, abrir os olhos, levar consciência, ajudar a andar, sem carregar, pois não se pode levar nos ombros todas as dores do mundo, mas podemos ajudar a fazê-las transformarem-se em ventos de mudança, força que humaniza. O trabalho voluntário é a expressão da solidariedade, a ação daqueles que sentem-se no lugar de seus irmãos que sofrem, querem sofrer com eles, para só assim, poder também gritar suas dores, querem pôr-se ao lado deles, para só então, caminhar lado a lado. Diferente dos “grandes”, que do alto de seus palanques acham que fazem revoluções, esbravejando acima das multidões, as massas, como eles chamam, inferiorizando a individualidade de cada um.

A luta política, no conceito que temos hoje, como unicamente através de partidos políticos, politicagem, busca por poder, avessa à solidariedade, é a maior hipocrisia do lado dos que tomam a bandeira do “bem”. Ser indivíduo expressivo, que compartilha, expande, abraça, já é ser sujeito político. Ser exemplo para todos poderem também se exprimir é ser sujeito político. Abraçar o desamparado é ser sujeito político, pois enquanto as eleições estão longe, o abraço alcança a alma.
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Como salvar o mundo sem antes salvar um homem?

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Um Círculo infinito, uma Luz que brilha em todos os lugares, todos nós - Um

Porque a Solidariedade



O sofrimento é o sentimento mais profundo de nossas almas, nossas carnes. Quando ele perfura nossos espíritos resistentes e anestesiados por nossas mentes que desesperadamente fogem dele, quando ele se faz presente, quando ele é a realidade, o que há de mais real dentro e fora de nós, descobrimos quais são as nossas fronteiras.
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Com tudo o mais tentamos atrair nossa atenção para esquecermos dele. A maior parte de nosso tempo é esquecê-lo. Alimentarmos-nos, vestirmos-nos, entretermos-nos, tudo para fugir do sofrimento, a origem de nossas necessidades. Seja a fome, ou o frio, ou o vazio das almas, cada ação acaba em uma fuga.
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O amor também se origina do sofrimento maior que há dentro de nós, estarmos sozinhos em nossas misérias pessoais. Buscamos anestesiar-nos em outros corpos que são estranhas à nossas almas, na contraditória intenção de completar a ausência primordial, o primeiro sofrimento, a divisão da vida em corpos distintos.
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Dividimos-nos tanto e passamos tanto tempo entorpecidos numa corrida constante para vencer a dor que nos tornamos estranhos e indiferentes uns aos outros. A maioria, se deixando levar pelo imediato desejo de prazer, em oposição à dor, abandona suas naturais conexões com todos os seres humanos, a consciência da vida, a compaixão, o ímpeto de correr em auxílio do próximo, a fraternidade, a humanidade, o amor natural ao próximo. Dilaceramos nossa sensibilidade, nosso poder superior de nos ligarmos e sentirmos tudo o que outra pessoa sente, para fugirmos da dor, as nossas e a de todos os outros.
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É mais fácil nos enganarmos achando que ignorar é indolor. Pode parecer, alguns podem achar que acreditam piamente que nenhuma dor os atingirá, pois eles ignoram sua existência. Mas a destruição, a negação desses laços entre os seres humanos, elos que estão além de nossa racionalidade, têm conseqüências que nos lembram o que tentamos esquecer. Trazem-nos a dor do vazio à que nos impomos para fugir da dor que é saber que o outro sofre, a imensa comoção que nos exige que doemos toda nossa vida e aceitemos toda a dor para proteger nossos irmãos, todos os seres humanos. Fechamos-nos em nós mesmos e definhamos sozinhos. Pois preferimos ficar sozinhos a sofrer, e descobrimos que a solidão é o maior sofrimento.
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Talvez seja essa a explicação do egoísmo, fugir da dor. Quando nos pensamos separados do Único Ser original, da energia criadora de tudo, que está em todo lugar, que gerou a Vida e é a Vida, nos defrontamos com nossa individualidade. Confundimos a possibilidade de desenvolvimento conjunto, fruto da união das infinitas células que formam nossos corpos e que somos nós no universo da humanidade, com a ilusão do desenvolvimento unitário. Acreditamos que se nascemos somente nós, é porque é assim que tem que ser e só nossa dor importa e só a ela devemos sanar. De imediato nossos pais, que aprenderam de seus pais, e assim por diante, desde os primeiros seres, nos ensinam que somos um entre muitos, e não muitos dentro de Um. Esquecemos o útero que nos gerou, infinitas partículas de vida para formar uma nova vida, esquecemos as mãos que nos ensinaram a caminhar e esquecemos a força maior que nos faz respirar, que está dentro de nós.
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Mas há os que se lembram, ou são ajudados a lembrar. A Vida originária da vida colocou dentro de cada um de nós, desenganados seres egoístas, a semente da lembrança do que significa sermos Um. E alguns desses espíritos conseguem germinar essa semente e fazê-la crescer em todos os poros e frutificar em todos os suspiros. Acordam novamente do sono profundo do esquecimento, do egoísmo, da fuga. Descobrem que a única coisa que importa é o outro, pois ele sou eu, somos nós, somos Um. O maior fruto dessa semente é o entendimento maior dessa jornada a percorrer, expandir esta vida que há dentro de nós até alcançar todas as vidas ao redor. Amar é expandir. Amar é unir. Amar é alcançar a Verdade da Vida. O amor maior é ter plena consciência de que essa energia que corre nas veias de todos é comum, comunitária, humana, humanitária, amorosa, Única.
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Enquanto aprendemos a cultivar a semente dentro de nós, vamos aprendendo a amar, o amor total, o amor sobre-humano, mas que na verdade é a verdadeira essência do ser humano. Aprendemos que nossas lágrimas pela dor do semelhante, do irmão de todos os cantos da Terra, as lágrimas dessa dor que se faz nossa, é a chuva que fortalece esta semente, que também pode ser entendida como uma Missão. Acordar. Acordar do longo sono da anestesia, acordar da insensibilidade às dores humanas, ir em busca de todas e fazer do próprio sangue, do bálsamo divino que é nossa vida, a panacéia da humanidade. Esta é a Missão dos que aceitam esta semente que está dentro de todos nós, que pulsa e nos dá a vida, faz nosso sangue correr nosso corpo, mas que também deseja que ele corra todos os corpos, funda-se em Um. Coração e Solidariedade. Eu e você.

terça-feira, 25 de março de 2008

Separados pelo abismo...

As Duas Cidades

Naqueles tempos marcados pelo progresso e pelo regresso, luz e escuridão, força e fraqueza, todos os homens viviam n´uma montanha íngreme, muito alta, cujo pico, repleto de torres e edifícios vistosos, era muito apertado, pequeno, mas a medida que se descia pela encosta, ela se alargava mais e mais, cheia de buracos, cavernas, saliências e deformidades faveladas. A produção de todo o necessário a esses homens era feita na parte média da montanha, cujas inúmeras fábricas eram abastecidas pelos braços do gentio do Sul (como eles chamavam a base da Montanha) e pelos recursos naturais da abundante base rochosa e bruta, tudo rigorosamente supervisionado pelos frutos das Fortalezas Acadêmicas do Norte (assim conhecido, o topo), de onde saiam doutores de tudo.

A plebe e sua cultura (considerada) rústica (segundo os doutores de tudo) contava em suas histórias folclóricas da existência de duas Cidades onde se dividiam os homens. Os homens do progresso e os do regresso, em lados diferentes, bastante desiguais em altura, separados por um grande abismo por sobre o qual havia apenas uma única ponte, que só o progresso foi capaz de construir, e portanto, a esses homens cabia o controle. Pela estreita ponte se dava o contato entre as duas Cidades, uma relação bastante injusta, diziam muitos. Os nebulosos, como se autodenominavam os moradores das Torres das Nuvens, devido às alturas celestes, zombavam dessas “crendices populares”, comentando em suas rodas as graças da simplória história, seus absurdos e fantasias. Diziam quão tolo era essa idéia de apenas uma ponte controlada por um único lado, riam dos contrastes, segundo eles, aviltantes, que havia entre os homens da história. Tal contraste quebra a estética artística de uma obra, da literatura, observavam.

Mas entre as famílias dos homens do Sul, as crianças dormiam ouvindo as histórias passadas entre as duas Cidades. Elas brincavam inventando aventuras entre as Cidades, transformavam um beco imundo perto de casa ‘na ponte’ e lá viviam suas estórias.

Nesta montanha, onde os poucos nebulosos apertavam-se em suas torres distantes, desfrutavam dos prazeres abundantes produzidos nas fábricas incontáveis, invejavam-se e brigavam uns com os outros, por acharem sua soberba insuficiente, despejando as sobras e os dejetos rochedo abaixo, e onde o restante dos homens carregavam com seus cansados braços o peso de todas as pedras de seus trabalhos, obrigações, faltas e escassez, sujeira e tristeza, havia uma desolação que a muitos matava, pois os que trabalhavam não suportavam tanto, e os outros, não suportavam o próprio vazio.

Diz-se que certo dia, quando os nebulosos ordenaram aumentar a exploração das vísceras da montanha, para produzirem e consumirem mais, mandaram com punhos de ferro que mais ferro fosse tirado das minas para fabricação de latas onde todos os prazeres se guardavam, a Montanha rugiu sua impaciência com aquelas criaturas que a perfuravam impiedosamente e cuspiu fogo para todos os lados, Norte, Sul, acima, abaixo, matando primeiro os de baixo, que sofreram logo o calor das chamas, depois os de cima, que perderam suas fontes de mercadorias e luxos.

Antes da tragédia que apagou aqueles seres da face da rocha, algumas crianças já espalhavam que um velho sábio das ruas, barbudo e contador de histórias, disse que o abismo que separava as duas Cidades gritaria o fogo da exploração e derrubaria a cruenta ponte, para depois lançar ondas silenciadoras de vida sobre ambos os lados, antes a cidade do regresso, imensa aglomeração, porém situada na menor altitude, para em seguida engolir o progresso, perdido nas alturas.

Naquela desigualdade dita natural por todos, afinal, o abismo, esta "força da natureza", separava encostas distintas, a morte não fez diferenças e a todos levou. Se tivessem entendido melhor esse absurdo de abismo, será que poderiam ter-lhe contido as chamas e preservado a vida?

sábado, 22 de março de 2008

"Que tua vida seja tua fala. Viver a verdade é o caminho mais eficaz." Mahatma Gandhi

- o poder está no seu coração, nas suas mãos, é você... ame. -


Amar - é humano


O Poder corrompe - frase corriqueira para explicar os desmandos da (ir)realidade moderna, justificando que os males deliberadamente provocados pelos homens são fruto desta corrupção imposta pelo fruto proibido do Poder. O Poder - o que significa isso? Que veneno atroz seria esse que à todos seduz? Poder viver - seria tão ruim? Poder libertar? Não me parece de todo mal. Poder acolher? Soa-me bastante cativante. Poder amar...

"O problema não é o Poder, mas o conceito que temos de Poder"

Se temos por Poder a capacidade de angariar privilégios para nos tornarmos ilusoriamente superiores, pretensiosamente maiores que os demais, acreditando tolamente que se constitui uma grandeza o ato de diminuir os iguais, deveras este tipo de poder só pode ser fonte de mal. No entando, seria o único poder existente? O único conceito viável? Não seríamos nós, seres dotados da racionalidade, capazes de refazer conceitos mal feitos?

Nossa forma de agir e reagir perante o mundo se constrói a partir dos conceitos que importamos do ambiente externo e dos que fabricamos em nós mesmos, analisando cuidadosamente as circunstâncias. Imperfeitos e imaturos que somos, somos constantemente comprometidos pelo erro, o que nos impele à necessidade de renovação. Reavaliar conceitos ruins é um hábito que acaba passando despercebido pela maioria, os quais, levados pelo cotidiano de comodismo, preferem persistir em seus padrões distorcidos à aprimorarem-se.

Conceitos... entendimento lógico que temos das coisas, ações, estados e realidades.

As vantagens que uns tomam sobre os outros surgem das brechas, das fraturas nos conceitos e valores que se encontram pelos oportunistas nos seus contemporâneos. E este conceito distorcido de Poder é uma das maiores brechas morais, rachaduras do ser humano. Mas como reavaliá-lo? Como poderia ser revisto? Que outro prisma haveria guardado dentro desta podridão que se tornou a idéia de poder, esta Caixa de Pandora que à todos leva a perdição, à ambição desmedida causadora de incontáveis males?

Já diz o ditado popular, embrutecendo o conceito pessimista de Poder:

“Queres conhecer um homem, dê Poder a ele”

Indicando nas entrelinhas que todos guardam grande maldade aflorada pelo Poder. Que razão, então, teve o Criador em fazer de sua criação uma fonte mascarada de maldade? Que sentido poderia ter tal insanidade? Seria uma brincadeira de péssimo gosto do Divino? Não posso crer que este seja o significado e o fim de todos nós – uma maldade intrínseca.

Sim, a liberdade que nos foi concedida é tão grandiosa que até mesmo para sermos maus fomos liberados. Pode-se crer que temos esse potencial sem prejudicar a lógica da criação, mas supor que esta seja nossa única e verdadeira essência ofusca a perfeição da criação, da vida, da natureza, da evolução espiritual a qual estamos seguindo.

Evolução. Revisão. Transformação. Reavaliar nossos conceitos, aprimorando a nós mesmos. O Poder, sendo visto como instrumento de nosso egoísmo, amplificado pelos conceitos individualistas, hedonistas e consumistas, característicos do Sistema Capitalista, certamente que é majoritariamente fonte de maldade, de crueldade, de injustiça e mal. Porém outros prismas para nossa visão são possíveis, outras formas de ver o mundo, expandindo nosso horizonte na medida que somos inteiramente livres para sermos o que somos, independentes de imposições sociais, como a visão capitalista do mundo.

Imaginemos um foco de luz, um círculo de claridade que abra uma janela em meio à escuridão deste Poder que corrompe. Sob um olhar humano, justo, fraterno, pacífico e amoroso, como poderia ser entendido o Poder? O Poder que cada um tem de trazer a paz ao outro, o Poder de irradiar felicidade, o Poder de restaurar a justiça, o Poder de impedir a violência, o Poder de transmitir a sabedoria, o Poder de Amar. O Poder de ser Vida, ser Luz, ser Paz e Amor. O Poder de Ser, contrapondo a ilógica imposição do Sistema do Poder de Ter.

Poder Amar, Poder de Amar, Poder de Amar-se, Poder de Amarmos-nos. O Poder de realmente sermos esta verdade que nos acolhe a alma, que nos faz transpor barreiras rumo à evolução. É tudo uma questão de escolha. Como você quer ver o mundo? Quem você quer ser? Que Poder queres pra ti? Tudo que quiseres, te será entregue, e é tua responsabilidade fazer o que quiser disto, mas o bem e o mal também são tua responsabilidade – tua, minha, nossa. Qual a sua escolha? Reveja seus conceitos.

“Que a tua vida seja tua fala. Viver a verdade é o caminho mais eficaz” Mahatma Gandhi

Abrace.

quarta-feira, 19 de março de 2008

A grande irmandade, esta humanidade...

Todos somos irmãos, braços dados ou não...
São tantos e tantos, por todos os cantos
Que não podes dar um passo
Sem encontrar um abraço
Isso somente caso
Tenhas no coração grande espaço
Para compreender a beleza de sermos
Todos irmãos, irmãs, humanos, guerreiros.

sábado, 15 de março de 2008

Esvai-se a Vida pelas vitrines... Esgota-se o ar em frente aos televisores... Desfalece em último suspiro desejando ter mais...


"Os velhos sofistas diziam,
Os velhos humanistas diziam -
O Homem é a medida de todas as coisas...
Hoje tudo foi invertido...
O homem não mais a medida de nada.
As coisas são a medida do homem."



Qual a medida de um ser humano?
Não importa...
Coisificados, somos agora sujeitos das vitrines, do mercado, das tendências...
Coisificados, o nosso bem-estar não mais é o fim de todas as ações. Apenas gerar capital justifica investir.

Desumanizados... somos apenas máquinas que movimentam economias através do consumo.
Nossos sonhos, aptidões, personalidades, esperanças não importam... importa o que temos.
A medida do homem passou a ser sua posse de capital.
Números. Nossa infinita possibilidade, criatividade, sensibilidade, amabilidade, tudo foi trocado por números. Cifras guardadas em bancos. São elas que importam...

Corações? De nada servem... Não se guardam em contas ou poupanças, não fazem operações financeiras.

Religiões? Crenças? Ideologias? Apenas aquelas que não sobreponham ou contradigam a supremacia do capital...
...

Não existem (?) mais vidas... existem filas para a próxima compra, e a espera entre a última e a próxima fila... preenchida por formas de se vender para obter capital... seja vendendo suor, tempo, sangue ou a própria vida...
Vida?

Desfalece em último suspiro desejando TER mais...
...

quarta-feira, 12 de março de 2008

A união faz a flor... Braços dados, ouvindo e sentindo um ao outro, encontramos a nós mesmos, nossas verdades, nossa evolução... luz.


Se discordas de mim, tu me enriqueces

Se és sincero
e buscas a verdade
e tentas encontrá-la como podes,
ganharei
tendo a honestidade
e a modéstia
de completar com o teu
meu pensamento,
de corrigir enganos,
de aprofundar a visão...

Dom Hélder Câmara

--//--

Não temamos posições diversas, outros pensamentos, novas idéias, diferentes possibilidades. Tudo quanto existe, ai está para nossa riqueza espiritual, nossa evolução, nosso crescimento enquanto seres de potencial e luz.

Ousemos construir pontes dos mais variados materiais, ligando corações que possam compartilhar seus aprendizados e ensinamentos. A diversidade torna cada um infinito, e todos expressões da grandeza da criação, da beleza da vida, da força da luz.

Não temais o teu próximo, ame-o, abrace-o, sinta-o em corpo e alma.

Para aprofundarmos nossa visão, entendimento e espírito.

O Deserto é fértil! A Vida é fonte de luz...

Aqueles que vieram para lutar pela Vida


“O essencial a transmitir é a descoberta maravilhosa: em todos os recantos da Terra, dentro de todas as raças, todas as línguas, todas as religiões, há criaturas que nasceram para dedicar-se, para gastar-se ao serviço do próximo, dispostas a não medir sacrifícios para a ajudar de verdade e enfim a construir um mundo mais justo e mais humano.

São criaturas ligadas ao meio em que se acham inseridas, mas que se sentem membros da Família Humana, a ponto de encararem como irmãos e irmãs, homens e mulheres de todas as latitudes e longitudes, de todos os climas e de todos os tamanhos, de todas as cores, de todos os graus de riqueza e de miséria, de todas as diferentes manifestações de cultura...
(...)

Deus teria inúmeras maneiras de distribuir seus dons. Se fosse um tímido, se se prendesse a julgamentos precipitados e sem base, repartiria seus dons em doses rigorosamente iguais para todos. Ninguém se poderia queixar: ninguém teria nada a mais, nada a menos. Tudo numerado, etiquetado, registrado...

Seria indigno da imaginação criadora do Pai. Seria de incrível monotonia, como se todas as criaturas humanas tivessem a mesma forma, a mesma cor, o mesmo perfume.

Deus aceita o risco de parecer injusto. Ninguém deixa de receber, pelo menos, o indispensável. Mas há quem receba com largueza estonteante. No caso, aludimos às verdadeiras riquezas: às riquezas interiores. E há os ricos de dons divinos, os privilegiados da graça.

Deus parece injusto, mas não é. Pede mais de quem recebe mais. Quem recebe mais, recebe em função dos outros. Não é maior, nem melhor, é mais responsável. Deve servir mais. Viver para servir.

O que importa não é pesar, medir, contar os dons recebidos. Não é ter recebido muito ou pouco. Importante é a firme decisão interior de responder ao máximo, e de servir.

Dom Hélder Câmara – O Deserto é Fértil

--//--

Quantas vezes os que lutam não se sentem indignados e desanimados pela solidão da batalha pela justiça, frente à imensidão das injustiças? Quantas vezes sua esperança e coragem não fraquejaram perante o aparente isolamento de tão poucos grupos ou indivíduos na marcha por uma Humanidade de Amor? Sempre esperam que se juntem à luta todos os homens, todas as almas, todos os braços unidos para a construção deste mundo de paz e justiça amorosa, mas, será que todos estão destinados à lutar?

Alguns, naturalmente corajosos e questionadores, lançam-se no desconhecido da batalha, outros, tímidos e cautelosos, prefere assistir a realidade acontecer, mero expectador. Coragem se ensina? Impetuosidade se ensina? Podemos mostrar àqueles que nunca sentiram dentro de si a chama da luta, como acendê-la?

Talvez sim, talvez não. Uma coisa é certa, não podemos forçar um homem a lutar. Ele não poderá andar neste novo mundo de amor, se não acreditar nisso. O que se pode fazer é mostrar o caminho, e quem quiser, seguirá, ou não. O que podemos é incendiarmos nossos corações de indignação e ímpeto transformador, lutador, fraterno, e deixar que o vento leve essa centelha a outros corações. Podemos ser fonte, mas não podemos nem devemos ser imposições. Impor seria trair nossa própria causa de sermos fraternos, livres e justos.

Alguns nascem para lutar pela vida existente por sua preservação, outros para repor a perdida. Para que nasceste? O que sentes inflamar dentro de si?

Mas também existe a constante força contrária a qualquer transformação, mudança, questionamento, distribuição igualitária da vida. Esta força tem todo o interesse e intenção de apagar, coagir, coibir e oprimir as chamas da renovação, da mudança, da revolução, e nisso, os corações são educados para a acomodação, e algumas das chamas se rendem às cinzas. Essas chamas, sim, precisam ser atraídas para a verdadeira razão de ser e de viver, e as pessoas destinadas à manutenção da existência, à reprodução, também podem e devem estar juntos aos lutadores na consciência de justiça, paz e amor, para estarem sendo força de manutenção desta realidade ‘nova’.

“O Deserto é fértil”. Se a luta parece infrutífera, se nossas ações e sacrifícios não nos permitem ver os infinitos resultados, não havemos de desistir. Pois este deserto de caos, sangue e injustiças em que nos encontramos, onde o amor só com grandes dificuldades floresce em meio à aridez do egoísmo e individualismo geral, é justamente a nossa matéria-prima, a realidade que devemos transformar, que se fertiliza com o sangue de nosso sacrifício, com o suor de nossa caminhada, com a luz de nossas vidas, nossos espíritos.

“Importante é a firme decisão interior de responder ao máximo, e de servir.”

Sejamos o que somos, luz, vida, amor. Sejamos seres humanos, humanos.
Existe o caminho, basta abrirmos os olhos para vê-lo, senti-lo, segui-lo. Observemos a perfeição da natureza...

terça-feira, 11 de março de 2008

"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem!" Bertolt Brecht

"A polícia só existe pra manter você na lei
Lei do silêncio, lei do mais fraco:
Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco"

(Até Quando? - Gabriel Pensador)

Polícia - instrumento de protenção da propriedade privada...

Entre a mulher e o capital... mulher, corra, que tu vale menos...
Entre o homem e o capital... homem, corra, que tu vale menos...
Entre a criança e o capital... criança, se esconda, que tu vale menos...
Entre o mundo e o capital... mundo, desista, acabou-se... virou banco do capital.

Capital

O capital,
A prioridade -
Para que cresça, cifras gordas
Defenda a propriedade
Que se exploda
A pobreza; se prolifere
A fome, a morte; o que querem
É do sangue lucrar bastante
Pra que esperar? Agora, neste instante!
As barrigas magras que caiam
Nas ruelas da miséria,
Os patrões nos terraços ensaiam
Os passos da próxima guerra!
Nas periferias da cidade
Fica o esgoto, o refugo...
Para o gritos dos excluídos
Está o mundo surdo!
Pra manter lucratividade
A polícia, afinal,
Precisa proteger o mal,
Manter a segurança do rico,
E que se aplique, se preciso
A pena capital!